A questão da ideologia – Parte 2 / The question of ideology – Part 2

Image credits: Karl Marx and Friedrich Engels. Marx-Engels Portraits, on marxists.org.

Olá gente. Hoje vou falar um pouco mais – mas não tudo o que pode ser dito – sobre a ideologia. Há muita confusão sobre o que significa esse conceito. Por um lado, existem inúmeras definições. Muitos pensadores já falaram da ideologia: Georg Lukács, Karl Mannheim, Max Horkheimer, Theodor Adorno, Herbert Marcuse, Walter Benjamin, Antonio Gramsci, Mikhail Bakhtin, Louis Althusser, Lucién Golmann, Jürgen Habermas, entre outros, e, no Brasil, recomendamos o filósofo Leandro Konder, que fez um grande levantamento das diferentes concepções do conceito de ideologia, no livro “A questão da ideologia”. Eu abordo a questão da ideologia no meu livro “A restauração conservadora da filosofia” – quando estiver pronto vou colocar o link aqui.

Por outro lado, tem havido muita confusão em torno desse conceito. No Brasil, a palavra tem sido usada de forma muitas vezes desqualificatória, ou seja, chama-se de “ideologia” a concepção política do outro, do adversário. O atual presidente brasileiro, venceu as eleições de 2018 dizendo que acabaria com as relações “ideológicas” do Brasil com determinados países, como a China. Mas a palavra ideologia quer dizer bem outra coisa. A forma vulgar como se usa o conceito distorce seu real sentido.

Podemos dizer que todo o conhecimento que o homem tem do mundo, desde tenra idade, quando ainda está aprendendo a falar, vem por meio da ideologia. Todo o conjunto de conhecimentos que começamos a aprender desde criança, e continuamos a aprender até que nossa vida se esvaia, não é neutro, ou seja, é ideológico. Por exemplo: todas as palavras que aprendemos são carregadas de um certo sentido, carregam valores e determinada visão de mundo. E assim seguimos em nossa vida. Tudo o que lemos, vemos, escutamos, sentimos e imaginamos tem um determinado sentido social, uma conotação política. E não pode ser de outro modo, pois o homem é um “animal político e social” e, além disso, vivemos em um mundo em disputa, altamente polarizado, no qual cada centímetro da realidade tem sido disputado. Tudo o que conhecemos chega até nós por meio da(s) ideologia(s).

Você é de esquerda? É de direita? Então segue uma ideologia. Não é nada disso? Ser “nem de esquerda nem de direita” também é uma ideologia. Então as ideologias estão por aí, na tela de luz azulada em que você lê e em todo lugar onde vai. E o que você acha que é melhor para seu país e para sua família também é uma ideologia.

Eu já dei umas pinceladas sobre a ideologia nesta outra postagem: “História das ideias e dos intelectuais. O que é isso? [A questão da ideologia – Parte 1]“, e prometi que em uma próxima postagem falaria da relação da ideologia com o poder. Então vamos lá.

Como disse acima, diversos autores falaram da ideologia. Mas hoje vou tratar daquele que deu a definição mais completa da ideologia: Karl Marx. “A ideologia alemã” não é a única obra onde Marx tratou disso, mas é a mais conhecida. Aliás, Marx não escreveu essa obra sozinho, escreveu com o amigo Friedrich Engels. Nessa obra, Marx e Engels acertam as contas com os chamados “jovens hegelianos”, ou seja, aqueles pensadores que seguiam algumas das concepções do grande filósofo idealista alemão Georg W. F. Hegel, sobretudo do pensador Ludwig Feuerbach. É nesta obra que os dois amigos fazem uma definição mais sistemática do materialismo histórico.

Há um trecho de “A ideologia alemã” que diz o seguinte – acompanhem aí que vale a pena:

“As ideias da classe dominante são, em cada época, as ideias dominantes, isto é, a classe que é a força material dominante da sociedade é, ao mesmo tempo, sua força espiritual dominante. A classe que tem à sua disposição os meios de produção material dispõe também dos também dos meios de produção espiritual, de modo que a ela estão submetidos aproximadamente ao mesmo tempo os pensamentos daqueles aos quais faltam os meios de produção espiritual. As ideias dominantes não são nada mais do que a expressão ideal das relações materiais dominantes, são as relações materiais dominantes apreendidas como ideias; portanto, são a expressão das relações que fazem de uma classe a classe dominante, são as ideias de sua dominação. Os indivíduos que compõem a classe dominante possuem, entre outras coisas, também consciência e, por isso, pensam; na medida em que dominam como classe e determinam todo âmbito de uma época histórica, é evidente que eles o fazem em toda sua extensão, portanto, entre outras coisas, que eles dominam também como pensadores, como produtores de ideias, que regulam a produção e a distribuição de ideias de seu tempo; e, por conseguinte, que suas ideias são as ideias dominantes da época.” [1]

Dessa forma, a ideologia dominante de uma época, é a ideologia da classe dominante. Quem é a classe dominante no capitalismo? A burguesia. Então a ideologia dominante, que chega até nós por meio do pensamento liberal, do pensamento de extrema-direita (fascista ou não), do autoritarismo, etc., é a ideologia dominante, pois representa os interesses materiais da burguesia, isto é, o interesse de continuar sendo a classe dominante, detentora do poder, detentora da supremacia social e aquela que faz sua vontade predominar no Estado e nos poderes estatais (Parlamento, Poder Judiciário, Poder Executivo), bem como nos principais aparelhos culturais, como os canais de televisão, nas redes sociais, etc.

E isso é fundamental, porque classe nenhuma é dominante somente com a força das armas e de suas tropas. A classe dominante obtém a hegemonia também pelas ideias, através das quais elas conquistam o consenso dos dominados e, para isso, normalmente se utiliza de um exército de ideólogos – que Antonio Gramsci chamou de “intelectuais orgânicos” – que trabalham no desenvolvimento, na disseminação e na inculcação da ideologia dominante entre as massas.

As classes populares, compostas sobretudo pelas classes trabalhadoras assalariadas, também têm sua ideologia, mas isso é tema para outra conversa. Até mais.


Referências:

1- MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. A ideologia alemã: crítica da mais recente filosofia alemã em seus representantes Feuerbach, B. Bauer e Stirner, e do socialismo alemão em seus diferentes profetas (1845- 1846). São Paulo, Boitempo, 2007.


Text in english:

Hello guys. Today I will talk a little more – but not everything that can be said – about ideology. There is a lot of confusion about what this concept means. On the one hand, there are numerous definitions. Many thinkers have already spoken of ideology: Georg Lukács, Karl Mannheim, Max Horkheimer, Theodor Adorno, Herbert Marcuse, Walter Benjamin, Antonio Gramsci, Mikhail Bakhtin, Louis Althusser, Lucién Golmann, Jürgen Habermas, among others, and, in Brazil, we recommend philosopher Leandro Konder, who made a great survey of the different conceptions of the concept of ideology, in the book “The question of ideology”. I address the issue of ideology in my book “The Conservative Restoration of Philosophy” – available in Portuguese.

On the other hand, there has been a lot of confusion around this concept. In Brazil, the word has been used in a way that is often disqualifying, that is, the political conception of the other, of the opponent, is called “ideology”. The current brazilian president won the 2018 elections saying that he would end Brazil’s “ideological” relations with certain countries, such as China. But the word ideology means something else. The vulgar way in which the concept is used distorts its real meaning.

We can say that all the knowledge that man has of the world, from an early age, when he is still learning to speak, comes through ideology. The whole set of knowledge that we started to learn since we were children, and we continue to learn until our lives are gone, is not neutral, that is, it is ideological. For example: all the words we learn are loaded with a certain sense, carry values and a certain worldview. And so we go on in our life. Everything we read, see, hear, feel and imagine has a certain social meaning, a political connotation. And it cannot be otherwise, because man is a “political and social animal” and, moreover, we live in a world in dispute, highly polarized, in which every inch of reality has been disputed. Everything we know comes to us through ideology.

Are you a leftist? Or are you right wing? So you follow an ideology. That’s not it? Being “neither left nor right wing” is also an ideology. So ideologies are out there, on the bluish light screen that you read and everywhere you go. And what you think is best for your country and your family is also an ideology.

I already spoke a little about ideology in this other post: “History of ideas and intellectuals. What is it? [The question of ideology – Part 1]“, and I promised that in a next post I would talk about the relationship of ideology with the power. So come on.

As I said above, several authors spoke of ideology. But today I will deal with the one who gave the most complete definition of ideology: Karl Marx. “The german ideology” is not the only work where Marx dealt with this, but it is the best known. In fact, Marx did not write this work alone, he wrote with his friend Friedrich Engels. In this work, Marx and Engels settle accounts with the so-called “young Hegelians”, that is, those thinkers who followed some of the conceptions of the great german idealist philosopher Georg W. F. Hegel, especially the thinker Ludwig Feuerbach. It is in this work that the two friends make a more systematic definition of historical materialism.

There is an excerpt from “The german ideology” that says the following:

The ideas of the ruling class are in every epoch the ruling ideas, i.e. the class which is the ruling material force of society, is at the same time its ruling intellectual force. The class which has the means of material production at its disposal, has control at the same time over the means of mental production, so that thereby, generally speaking, the ideas of those who lack the means of mental production are subject to it. The ruling ideas are nothing more than the ideal expression of the dominant material relationships, the dominant material relationships grasped as ideas; hence of the relationships which make the one class the ruling one, therefore, the ideas of its dominance. The individuals composing the ruling class possess among other things consciousness, and therefore think. Insofar, therefore, as they rule as a class and determine the extent and compass of an epoch, it is self-evident that they do this in its whole range, hence among other things rule also as thinkers, as producers of ideas, and regulate the production and distribution of the ideas of their age: thus their ideas are the ruling ideas of the epoch“. [1]

Thus, the dominant ideology of an era, is the ideology of the ruling class. Who is the ruling class in capitalism? The bourgeoisie. So the dominant ideology, which reaches us through liberal thinking, extreme right thinking (fascist or not), authoritarianism, etc., is the dominant ideology, because it represents the material interests of the bourgeoisie, that is, the interest in continuing to be the dominant class, the holder of power, the holder of social supremacy and the one that makes its will predominate in the State and in the state powers (Parliament, Judiciary, Executive Power), as well as in the main cultural apparatus, such as the channels of television, social media, etc.

And this is fundamental, because no class is dominant only with the strength of arms and its troops. The dominant class also obtains hegemony through ideas, through which they gain the consensus of the dominated and, for that, it normally uses an army of ideologues – which Antonio Gramsci called “organic intellectuals” – who work in the development, in the dissemination and in inculcating the dominant ideology among the masses.

The popular classes, composed mainly of the salaried working classes, also have their ideology, but that is a topic for another conversation. See you.


References:

1- MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. The german ideology. Excerpt “Ruling Class and Ruling Ideas”: https://www.marxists.org/archive/marx/works/1845/german-ideology/ch01b.htm

Publicado por

Rodrigo Jurucê Mattos Gonçalves

Doutor em História. Professor da Universidade Estadual de Goiás.

2 comentários em “A questão da ideologia – Parte 2 / The question of ideology – Part 2”

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