130 anos de Antonio Gramsci / 130 years of Antonio Gramsci

Image credits: MACIEL, David. Gramsci, óleo sobre tela / oil on canvas, 15×15 cm, 2018.


Em 22 de janeiro de 1891 nascia na Sardenha, Itália, Antonio Gramsci, há exatos 130 anos. A importância de Gramsci para o marxismo é fundamental. Os fundadores do marxismo, Karl Marx e Friedrich Engels, não desenvolveram uma teoria geral na área da política, essa tarefa coube a Gramsci, que criou uma teoria marxista da política. Os fundadores de certa forma relutaram em desenvolver uma teoria nessa área, sobretudo porque consideravam que as relações legais e as formas do Estado eram derivadas da vida econômica e não podiam ser entendidas por elas mesmas. Lênin sentiu a necessidade de uma teoria mais sistemática do Estado, e iniciou uma formulação mais pormenorizada no notável “O Estado e a Revolução”, escrito entre agosto e setembro de 1917.

Nesta obra, o revolucionário russo retomava e sistematizava as lições dispersas dos fundadores do marxismo no campo da política. Ademais disso, a obra representa uma ruptura com a tradição reformista e de socialismo institucional da II Internacional. Todavia, com a chegada da revolução poucos meses depois, em outubro daquele ano, a tarefa de concluir a teoria política marxista não pode ser completada por Lênin, o qual era o dirigente máximo da revolução socialista.

Não só a revolução socialista de 1917, ocorrida na Rússia, abreviou a formulação da teoria marxista da política, como as discussões existentes até então eram insuficientemente elaboradas. Segundo Eric Hobsbawm, as discussões sobre a estrutura, a organização e a liderança dos movimentos socialistas que ocorreram na época da II Internacional trataram apenas de questões práticas; “Suas generalizações teóricas eram secundárias e ad hoc, salvo, talvez, no campo da questão nacional, onde os sucessores de Marx e Engels praticamente tiveram de começar do zero” [i]. Mesmo as discussões sobre o novo partido de Lênin, pouca teoria marxista entra no debate do qual participaram marxistas famosos, como Kautsky, Luxemburgo, Plekhanov, Trotski, Martov e Riazanov [ii].  

Nicos Poulantzas define de forma mais específica a contribuição de Gramsci. Antes dele, os marxistas já haviam abordado o aparelho repressivo do Estado,o qual é responsável pela repressão física organizada, sendo composto de setores especializados: o exército, a polícia, a magistratura, a administração. Esse conjunto de aparatos formam o núcleo central do Estado. Todavia, a dominação política não se pode efetuar unicamente por intermédio da repressão. A ideologia e seus respectivos aparelhos de produção e disseminação na sociedade civil estruturam o consenso sem o qual não há poder que se afirme como tal. Mas o marxismo teve que esperar Gramsci para que as coisas fossem definidas a esse respeito [iii].

Segundo Carlos Nelson Coutinho, a política é o ponto focal de Gramsci, a partir do qual ele analisa a totalidade da vida social, a cultura, a filosofia, a pedagogia, etc. Na esfera da teoria política, mais especificamente na “elaboração de uma ontologia materialista da práxis política”, consiste a contribuição do marxista sardo “à renovação do marxismo e da filosofia política em geral”[iv]. As categorias gramscianas têm uma eficiência analítica que transcende seu tempo e seu país, fazendo do sardo o fundador da teoria marxista da política, mas influenciando a ciência política em geral, muito além do marxismo.

Em novembro de 1926, quando era secretário geral do Partido Comunista da Itália, Gramsci acabou preso pelo regime fascista liderado por Mussolini. Quando Gramsci foi condenado, o ministério público do regime fascista proferiu a seguinte sentença: “Por 20 anos devemos impedir que este cérebro funcione”[v]. Antes de ser preso, Gramsci já era autor de extensa obra, sobretudo jornalística, com destaque para o jornal L’Ordine Nuovo (A Nova Ordem), onde elevou o combate cultural a novo patamar. Na prisão, duas obras foram desenvolvidas em paralelo: as chamadas “Cartas do cárcere” e os “Cadernos do cárcere”, publicadas primeiramente em italiano e depois traduzidas para inúmeros idiomas, inclusive o português e o inglês, estando entre as obras mais importantes do século XX. Eu já escrevi sobre Gramsci em, por exemplo, meu livro “História Fetichista”, ou neste artigo sobre o conceito de revolução passiva.

A obra de Gramsci é fundamental para todos aqueles que desejam não só conhecer, mas transformar o mundo. Para finalizar essa postagem, deixo a seguir um trecho que descreve o combate de Gramsci ao fascismo quando era deputado e denunciava a violência fascista destinada a desaparecer.

Até mais.


Em 16 de maio de 1924, Mussolini, já presidente do Conselho de Ministros, encaminha ao parlamento Italiano um projeto de lei visando ‘disciplinar a atividade das associações e institutos’. […] Gramsci, então deputado, pronunciou um discurso no qual punha a nu o caráter antidemocrático do projeto e aproveitava para denunciar as manobras fascistas no sentido de implantar no país uma ditadura.

O próprio Mussolini, irritado, resolveu apartear o franzino e corajoso deputado marxista, definindo o fascismo como uma ‘revolução’. Gramsci retrucou-lhe que o fascismo não era uma revolução, mas uma ‘simples substituição de um pessoal administrativo por outro. Só é revolução – acentuou – aquela que se baseia em uma nova classe; o fascismo não se baseia em nenhuma classe que já não esteja no poder’.

Mussolini voltou à carga, procurando descaracterizar o conteúdo de classe do fascismo e protestando: ‘Grande parte dos capitalistas está contra nós!’. O deputado oposicionista não se perturbou, e observou que o fascismo só entrava em choque agudo com os outros partidos e organizações da burguesia […] porque queria estabelecer o monopólio da representação da classe. A atitude do fascismo com relação aos demais partidos burgueses era simples: ‘Primeiro lhes quebra as pernas e, depois, faz o acordo com eles em condições de evidente superioridade’.

Mussolini não gostou da referência à violência dos fascistas, retrucando que esta violência equivalia a dos comunistas. Gramsci lhe respondeu: ‘A vossa violência é sistemática e é sistematicamente arbitrária, porque vós representais uma minoria destinada a desaparecer’.[vi]


Referências:

[i] HOBSBAWM, Eric. Gramsci. In: Como mudar o mundo: Marx e o marxismo (1840-2011). São Paulo: Cia. Das Letras, 2011, p. 290.

[ii] Idem.

[iii] POULANTZAS, Nicos. Karl Marx e F. Engels. In: CHÂTELET, François (Dir.). História da filosofia: ideias, doutrinas. Volume 5: A filosofia e a história, de 1780 a 1880. Rio de Janeiro: Zahar, 1974, p. 296.

[iv] COUTINHO, Carlos Nelson. Gramsci: um estudo sobre seu pensamento político. 3 ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007, p. 02.

[v] FIORI, Giuseppe. A vida de Antonio Gramsci. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979, p. 285.

[vi] COUTINHO, Carlos Nelson e KONDER, Leandro. Nota sobre Antonio Gramsci. In: GRAMSCI, Antonio. Concepção dialética da história. 10ª ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1995, p. 02-03.


English translation:

On January 22, 1891 Antonio Gramsci was born in Sardinia, Italy, exactly 130 years ago. Gramsci’s importance to Marxism is fundamental. The founders of Marxism, Karl Marx and Friedrich Engels, did not develop a general theory in the area of politics, this task fell to Gramsci, who created a Marxist theory of politics. The founders were somewhat reluctant to develop a theory in this area, mainly because they considered that legal relations and the forms of the State were derived from economic life and could not be understood by themselves. Lenin felt the need for a more systematic theory of the state, and began a more detailed formulation in the notable “The State and the Revolution”, written between August and September 1917, during the Russian Revolution.

In this work, the russian revolutionary took up and systematized the scattered lessons of the founders of marxism in the field of politics. Furthermore, the work represents a break with the reformist tradition and institutional socialism of the II International. However, with the arrival of the revolution a few months later, in October of that year, the task of completing the Marxist political theory cannot be completed by Lenin, who was the top leader of the socialist revolution.

Not only did the 1917 socialist revolution in Russia shorten the formulation of marxist theory of politics, but the discussions that had hitherto been insufficiently elaborated. According to Eric Hobsbawm, the discussions about the structure, organization and leadership of socialist movements that took place at the time of the II International dealt only with practical issues; “His theoretical generalizations were secondary and ad hoc, except, perhaps, in the field of the national question, where the successors of Marx and Engels practically had to start from scratch” [i]. Even the discussions about Lenin’s new party, little Marxist theory enters the debate in which famous marxists participated, such as Kautsky, Luxembourg, Plekhanov, Trotsky, Martov and Riazanov [ii].

Nicos Poulantzas more specifically defines Gramsci’s contribution. Before him, marxists had already addressed the state’s repressive apparatus, which is responsible for organized physical repression, being composed of specialized sectors: the army, the police, the judiciary, the administration. This set of apparatus forms the central nucleus of the State. However, political domination cannot be achieved only through repression. Ideology and its respective apparatus of production and dissemination in civil society structure the consensus without which there is no power to assert itself as such. But marxism had to wait for Gramsci for things to be defined in this regard [iii].

According to Carlos Nelson Coutinho, politics is Gramsci’s focal point, from which he analyzes the totality of social life, culture, philosophy, pedagogy, etc. In the sphere of political theory, more specifically in the “elaboration of a materialist ontology of political praxis”, the contribution of the Sardinian Marxist consists of “the renewal of marxism and political philosophy in general” [iv]. Gramscian categories have an analytical efficiency that transcends their time and their country, making the Sardinian the founder of marxist theory of politics, but influencing political science in general, far beyond marxism.

In November 1926, when he was secretary general of the Communist Party of Italy, Gramsci ended up in prison by the fascist regime led by Mussolini. When Gramsci was convicted, the prosecutor’s office of the fascist regime issued the following sentence: “For 20 years we must prevent this brain from working” [v]. Before being arrested, Gramsci was the author of an extensive work, mainly journalistic, with emphasis on the newspaper L’Ordine Nuovo (The New Order), where he took cultural combat to a new level. In prison, two works were developed in parallel: the so-called “Cartas do cárcere” and the “Cadernos do cárcere”, first published in Italian and later translated into numerous languages, including Portuguese and English, being among the most important works in the world. 20th century. I already wrote about Gramsci in, for example, my book “Fetish History”, or in this article on the concept of passive revolution – both works are in Portuguese.

Gramsci’s work is fundamental for all those who wish not only to know, but to transform the world. To end this post, I leave below an excerpt that describes Gramsci’s fight against fascism when he was a deputy and denounced the fascist violence destined to disappear.

See you.


On May 16, 1924, Mussolini, already president of the Council of Ministers, submitted to the Italian parliament a bill aimed at ‘disciplining the activity of associations and institutes’. […] Gramsci, then deputy, delivered a speech at which exposed the anti-democratic character of the project and took the opportunity to denounce fascist maneuvers in order to implant a dictatorship in the country.

Mussolini himself, irritated, decided to separate the small and courageous marxist deputy, defining fascism as a ‘revolution’. Gramsci replied that fascism was not a revolution, but a ‘simple replacement of one administrative person by another. It is only revolution – he emphasized – that which is based on a new class; fascism is not based on any class that is no longer in power ’.

Mussolini returned to the charge, seeking to mischaracterize the class content of fascism and protesting: ‘A large part of the capitalists is against us!’ The opposition deputy was not disturbed, and noted that fascism was only in sharp shock with the other parties and organizations of the bourgeoisie […] because he wanted to establish a monopoly on class representation. Fascism’s attitude towards the other bourgeois parties was simple: ‘First it breaks their legs and then it makes the agreement with them in conditions of evident superiority’.

Mussolini did not like the reference to fascist violence, saying that this violence was equivalent to that of communists. Gramsci replied: ‘Your violence is systematic and systematically arbitrary, because you represent a minority destined to disappear’. “[Vi]


References:

[i] HOBSBAWM, Eric. “Gramsci”. In: How to change the world: Marx and Marxism (1840-2011). São Paulo: Companhia Das Letras, 2011, p. 290.

[ii] Idem.

[iii] POULANTZAS, Nicos. Karl Marx and F. Engels. In: CHÂTELET, François (Dir.). History of philosophy: ideas, doctrines. Volume 5: Philosophy and history, from 1780 to 1880. Rio de Janeiro: Zahar, 1974, p. 296.

[iv] COUTINHO, Carlos Nelson. Gramsci: a study on his political thinking. 3rd ed. Rio de Janeiro: Brazilian Civilization, 2007, p. 02.

[v] FIORI, Giuseppe. Antonio Gramsci’s life. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979, p. 285.

[vi] COUTINHO, Carlos Nelson and KONDER, Leandro. “Note on Antonio Gramsci”. In: GRAMSCI, Antonio. Dialectical conception of history. 10th ed. Rio de Janeiro: Brazilian Civilization, 1995, p. 02-03.

Publicado por

Rodrigo Jurucê Mattos Gonçalves

Doutor em História. Professor da Universidade Estadual de Goiás.

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