Revolução e revolução passiva / Revolution and passive revolution

Vincenzo Cuoco (1770-1823) chamou a Revolução Napolitana de 1799 como “revolução passiva”. Essa “revolução” não contou com as massas populares – ficou centrada nos intelectuais -, ocorreu como consequência da Revolução Francesa e acabou derrotada. O conceito serviu a Antonio Gramsci para explicar os processos históricos de formação nacional que não passaram por uma revolução de tipo jacobino. English: Vincenzo Cuoco (1770-1823) called the 1799 Neapolitan Revolution as a “passive revolution”. This “revolution” did not count on the popular masses – it was centered on intellectuals -, it occurred as a consequence of the French Revolution and ended up defeated. The concept served Antonio Gramsci to explain the historical processes of national formation that did not undergo a jacobin type revolution. Image credits: Wikimedia Commons

A chamada “revolução passiva” é um conceito desenvolvido por Antonio Gramsci para analisar processos históricos de mudança nos quais não se pode dizer que houve uma revolução propriamente dita, ou seja, falamos de revolução passiva quando as mudanças ocorridas não transformam os fundamentos do sistema vigente ou até fortaleceram e reafirmaram seus fundamentos. Eu abordei a revolução passiva de forma em meu livro História Fetichista e em um artigo que você pode acessar.

O conceito de revolução passiva contribui para a interpretação de países que passaram por uma série de mudanças, algumas bastante profundas mas parciais, como o fim da escravidão no Brasil e a chamada “Revolução de 1930”, preservando a maior parte dos interesses das classes dominantes. Os escravizados libertaram-se da escravidão, mas foram alijados de um direito fundamental – o acesso à terra -, pois não tivemos reforma agrária. Outro exemplo é a mudança do eixo econômico brasileiro para o setor industrial, nos anos 1930, após 4 séculos de predominância dos setores agrário e extrativista. Também aqui foram preservados interesses das classes dominantes: a propriedade concentrou-se, o operariado recebia salários baixos, de subsistência, embora a exploração fosse crescente. Nos dois exemplos históricos, o aparelho de Estado conservou-se na mão das classes dominantes e o poder não foi tomado pelas classes dominadas.

Originalmente, o conceito de revolução passiva foi desenvolvido para analisar a história da Itália, mas o próprio Gramsci diz que pode servir à análise de outros países que não tiveram uma revolução de tipo jacobino, como a França teve: “O conceito de revolução passiva me parece exato não só para a Itália, mas também para os outros países que modernizaram o Estado através de uma série de reformas ou de guerras nacionais, sem passar pela revolução política de tipo radical-jacobino” [1].

Esse conceito ocupa uma parte significativa dos Cadernos do cárcere, a obra principal de Gramsci, que no Brasil foi publicada em 6 volumes (edição coordenada por Carlos Nelson Coutinho) e, na Itália, em 4 volumes (edição organizada por Valentino Gerratana). E Gramsci analisa a história da Itália, de sua revolução burguesa no século XIX, o chamado Risorgimento, até à época do governo fascista de Mussolini. A questão da revolução passiva se desdobrará na análise do fordismo e do americanismo.

Um dos aspectos que consideramos mais interessantes é o momento hegemônico da revolução passiva, quando o adversário é dirigido moral e intelectualmente, através da absorção dos inimigos, de seu transformismo, o que implica numa hegemonia sobre a situação histórica:

“[…] com a absorção gradual mas contínua, e obtida com métodos de variada eficácia, dos elementos ativos surgidos dos grupos aliados e mesmo dos adversários e que pareciam irreconciliavelmente inimigos. Neste sentido, a direção política se tornou um aspecto da função de domínio, uma vez que a absorção das elites dos grupos inimigos leva à decapitação destes e a sua aniquilação por um período frequentemente muito longo“. [2]

Assim, inimigos irreconciliáveis podem ser absorvidos pela classe dominante, de forma que deixam de oferecer um risco para o poder e mesmo para o sistema capitalista, e passam a, no máximo, ser uma oposição consentida, dentro da ordem colocada. Não é difícil pensar em tantas personalidades, e até mesmo em partidos e organizações, que no passado foram de uma esquerda muito combativa e hoje são partidos que não oferecem risco ao sistema capitalista. Talvez o maior exemplo histórico seja o Partido dos Trabalhadores (PT), que abandonou os antigos projetos de transformações mais radicais da realidade brasileira.

As forças dominantes, quando não se deparam com organizações que lhe oponham uma visão antissistêmica, anticapitalista, ficam em uma situação de maior segurança, pois os fundamentos do sistema normalmente não são questionados e não há propostas de modernização mais profunda do capitalismo, como a ampla reforma agrária, por exemplo, que nunca ocorreu na história brasileira e tornaria o capitalismo brasileiro menos desigual, com menos pobreza e miséria. Não só as reformas mais profundas ficam fora do horizonte social, econômico e político, como a revolução fica fora de cogitação, sem propostas de superação do capitalismo. Para as classes dominantes é uma situação bastante favorável.


Referências:

[1] GRAMSCI, Antonio. Cadernos do cárcere. V. 5. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002, p. 209-210.

[2] Idem, p. 63.

Text in english:

The so-called “passive revolution” is a concept developed by Antonio Gramsci to analyze historical processes of change in which it cannot be said that there was a revolution itself, that is, we speak of passive revolution when the changes that occurred do not transform the foundations of the current system or even strengthen and reaffirm their foundations. I covered the passive form revolution in my book Fetish History and in an article that you can access, available in Portuguese.

The concept of passive revolution contributes to the interpretation of countries that have undergone a series of changes, some quite profound but partial, such as the end of slavery in Brazil and the so-called “1930 Revolution”, preserving most of the interests of the dominant classes. The enslaved people freed themselves from slavery, but were stripped of a fundamental right – access to land – because we did not have agrarian reform. Another example is the shift from the Brazilian economic axis to the industrial sector, in the 1930s, after 4 centuries of predominance of the agrarian and extractive sectors. Here, too, the interests of the dominant classes were preserved: property was concentrated, the workers received low subsistence wages, although exploitation was growing. In the two historical examples, the state apparatus remained in the hands of the dominant classes and power was not taken over by the dominated classes.

Originally, the concept of passive revolution was developed to analyze the history of Italy, but Gramsci himself says that it can serve the analysis of other countries that did not have a jacobin type revolution, as France did: “The concept of passive revolution gave me it seems accurate not only for Italy, but also for the other countries that modernized the state through a series of reforms or national wars, without going through the radical jacobean political revolution”[1].

This concept occupies a significant part of Cadernos do cárcere, the main work of Gramsci, which in Brazil was published in 6 volumes (edition coordinated by Carlos Nelson Coutinho) and, in Italy, in 4 volumes (edition organized by Valentino Gerratana). And Gramsci analyzes the history of Italy, from its 19th century bourgeois revolution, the so-called Risorgimento, until the time of Mussolini’s fascist government. The issue of passive revolution will unfold in the analysis of fordism and americanism.

One of the aspects that we consider most interesting is the hegemonic moment of the passive revolution, when the adversary is directed morally and intellectually, through the absorption of the enemies, of their transformism, which implies a hegemony over the historical situation:

“[…] with the gradual but continuous absorption, and obtained with methods of varying effectiveness, of the active elements that emerged from the allied groups and even from the opponents and that seemed irreconcilably enemies. In this sense, political leadership has become an aspect of the function of domination, since the absorption of the elites of the enemy groups leads to the beheading of these and their annihilation for an often very long period“. [2]

Thus, irreconcilable enemies can be absorbed by the ruling class, so that they no longer pose a risk to power and even to the capitalist system, and become, at most, a consented opposition, within the order placed. It is not difficult to think of so many personalities, and even of parties and organizations, which in the past were of a very combative left and today are parties that do not pose a risk to the capitalist system. Perhaps the greatest historical example is the Workers’ Party (PT), which abandoned the old projects of more radical transformations in the Brazilian reality.

The dominant forces, when they do not encounter organizations that oppose an anti-systemic, anti-capitalist view, are in a situation of greater security, since the fundamentals of the system are not normally questioned and there are no proposals for a deeper modernization of capitalism, such as the broad land reform, for example, which never occurred in Brazilian history and would make Brazilian capitalism less unequal, with less poverty and misery. Not only are the most profound reforms out of the social, economic and political horizon, but the revolution is out of the question, with no proposals for overcoming capitalism. For the dominant classes it is a very favorable situation.


References:

[1] GRAMSCI, Antonio. Prison notebooks. V. 5. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002, p. 209-210.

[2] Idem, p. 63.

Publicado por

Rodrigo Jurucê Mattos Gonçalves

Doutor em História. Professor da Universidade Estadual de Goiás.

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