Tempos Conservadores / Conservative Times

Image credits: Gage Skidmore/Wikimedia Commons

Não é difícil de definir a época em que vivemos como “tempos conservadores”. Embora o principal governante conservador, Donald Trump, tenha sido derrotado nas eleições de 2020, não é possível dizer que o conservadorismo de extrema direita esteja derrotado. Comento a seguir.

Primeiramente, o governante eleito, Joe Biden, não deixa de ser um conservador, mais moderado e mais habilidoso do que Trump, mas ainda assim conservador. O ex-presidente não se deu por derrotado, quem sabe pode até voltar a se candidatar nas próximas eleições, afinal de contas, ele fez 74,2 milhões de votos, o que é muito considerável em um total de cerca de 158 milhões.

Enquanto esse texto era escrito, manifestantes portanto bandeiras e faixas que estampavam “Trump” invadiram o Capitólio, aonde funciona o Congresso dos Estados Unidos, tentando anular a ratificação da vitória eleitoral de Biden. As cenas lembravam a Ucrânia, quando manifestantes de extrema direita confrontaram o governo, nos anos de 2013 e 2014. Enquanto isso, o Twitter de Trump reafirmava que as eleições tinham sido fraudadas. Mas, independentemente do que aconteça nos EUA, a mensagem de subversão reacionária de Trump ecoará pelo mundo. Será fonte de inspiração. Podemos esperar novas tentativas de golpes de Estado por parte da direita no mundo.

Em segundo lugar, o conservadorismo de extrema direita está longe de ser apenas um fenômeno eleitoral. Os extremistas estão socialmente articulados, tendo ao seu lado inúmeras organizações, como igrejas, partidos, instituições, think tanks, imprensa, canais de televisão e de YouTube, etc., etc. Mas o fundamental é que o conservadorismo – moderado, liberal e de extrema direita – está imbricado no Estado e no sistema capitalista como um todo.

Como eu disse em outro lugar, “A republicação, em 2020, de estudos mais antigos que buscam entender a psicologia de massas que sustenta o avanço da extrema direita, como o livro de Theodor Adorno ‘Estudos sobre a personalidade autoritária’ de 70
anos atrás, e de Maria Rita Kehl a obra ‘Ressentimento’ do início dos anos 2000, indicam que a vitória das forças conservadoras pode representar algo mais profundo e duradouro
” [1].

Ademais disso, as direitas e, sobretudo, a extrema direita, aprendeu a capturar de forma habilidosa a consciência popular, dirigindo moral e intelectualmente partes consideráveis das classes populares. Os extremistas aprenderam – algumas vezes se apropriando de armas e métodos da esquerda, invertendo seus valores e sentido – a direcionar não só os desejos, mas as frustrações e este sentimento comum ao gênero humano, o ódio, para um sentido que não afeta o sistema e ainda debela as forças contrárias à classe dominante. Isso vem redundando no fortalecimento as forças capitalistas e na destruição dos direitos dos trabalhadores.

O sistema capitalista encontra-se, há mais de uma década, em uma forte crise não só econômica, mas uma crise que também é política, social, cultural, etc. E, diante dessa crise, o próprio sistema tem fortalecido seus aspectos mais radicais, fortalecendo ou fazendo ressurgir a extrema direita, o fascismo, o ultraneoliberalismo. Portanto, podemos dizer que ainda vivemos em “tempos conservadores”. No caso específico brasileiro, pode-se dizer que a década de 2010, marcada pela ascensão da extrema direita, não terminou.

Hoje gostaria de lhes apresentar a coleção “Tempos Conservadores: estudos críticos sobre as direitas” de e-books totalmente gratuitos e livres para download. Atualmente, a coleção tem três volumes publicados pelo selo editorial Gárgula, de Goiânia, em língua portuguesa. Trata-se de uma obra coletiva, com textos de diferentes autores, que têm em comum a pesquisa científica e crítica das direitas.

Dizemos “direitas” (no plural) porque existem diferentes vertentes desse prisma político, social e ideológico, como os liberais, os fascistas, entre outros, os quais têm em comum a defesa do sistema capitalista e dos privilégios das classes dominantes. Para causar confusão no inimigo, eles podem atacar um ou outro setor burguês, como os fascistas italianos faziam contra os “plutocratas”, como o ataque contra as grandes empreiteiras brasileiras promovido pelos militantes judiciários na sua cruzada “anticorrupção” e “antipolítica”, mas defendem invariavelmente os fundamentos do sistema. O título “Tempos conservadores” foi tomado de empréstimo de um livro de Agustín Cueva, publicado na década de 1980.

O primeiro volume da coleção, lançado em 2016, foi organizado por Lucas Patschiki (in memoriam), Marcos Alexandre Smaniotto (SEED PR) e Jefferson Rodrigues Barbosa (Unesp). Nele encontramos textos sobre: Paulo Francis (por Alexandre Blankl Batista); a Frente Nacional (FN) e Marine Le Pen (por Guilherme Ignácio Franco de Andrade); o nacionalismo japonês (por Janaina de Paula do Espírito Santo); skinheads, integralistas e os carecas (por Jefferson Rodrigues Barbosa); o Instituto Millenium (por Lucas Patschiki); a direita “filantrópica” e o Rotary Clube (Marcos Alexandre Smaniotto); o pensamento conspiratório e as teorias da conspiração (por Marcos Meinerz); o golpe de Estado de 1976 na Argentina (por Marcos Vinicius Ribeiro); o Instituto Ludwig von Mises Brasil (por Raphael Almeida Dal Pai); e o Instituto Brasileiro de Filosofia (por Rodrigo Jurucê Mattos Gonçalves). A capa foi feita pelo talentoso Paulo Jeca Schulz.

O volume 1 conta com Prefácio do historiador Gilberto Calil e Apresentação do filósofo Pedro Leão da Costa Neto que afirma: “As discussões aqui propostas são bastante atuais, sobretudo nessa época dominada por uma ofensiva cultural e política da direita cada vez mais aberta e, necessariamente, disposta a cumprir seu objetivo e complemento econômico e social: a destruição dos direitos dos trabalhadores” [2]. Você pode acessar gratuitamente o e-book aqui.

Em 2018 e em 2020 foram lançados os volumes 2 e 3 da coleção “Tempos Conservadores: estudos críticos sobre as direitas”. Foram importantes lançamentos porque deram continuidade ao projeto, que se ampliou e se internacionalizou, com a contribuição de autores da Argentina, Uruguai, Portugal, França e Brasil. Esses volumes foram organizados por Rodrigo Jurucê Mattos Gonçalves (UEG, vol. 2 e 3), Guilherme Ignácio Franco de Andrade (UFMS, vol. 2 e 3), Marcos Vinícius Ribeiro (UEG, vol. 2 e 3) e Jefferson Rodrigues Barbosa (Unesp, vol. 3).

O volume 2 tem como tema “Direitas no Cone Sul” (América do Sul), e traz textos sobre: o anti-comunismo no Uruguai e na Argentia (por Ernesto Bohoslavsky e Magdalena Broquetas); o Partido de Representação Popular-PRP (por Gilberto Calil); sobre modernização conservadora no estado do Paraná, Brasil (por Marcos Alexandre Smaniotto); o golpe de Estado de 2012, no Paraguai, que depôs Fernando Lugo (por Marcos Vinícius Ribeiro); o Partido de Reedificação da Ordem Nacional-Prona, liderado por Enéas Carneiro (por Odilon Caldeira Neto); o golpismo entre os intelectuais argentinos de direita (por Olga Echeverría); Miguel Reale e o pensamento autocrático (por Rodrigo Jurucê Mattos Gonçalves); a Revista Brasília, de cunho autoritário (por Marcello Felisberto Morais de Assunção).

Esse volume conta ainda com o Prefácio de Pedro Leão da Costa Neto e quatro textos que fazem uma singela homenagem aos amigos falecidos Lucas Patschiki (1983-2017) e Alexandre Blankl Batista (1980-2018), que tiveram textos publicados no volume 1 da coleção.

O volume 3 tem como tema as “Direitas na Europa”, traz Prefácio do historiador David Maciel e textos sobre: os conceitos de esquerda e de direita (por Muniz Ferreira); dois textos sobre o partido Front Nacional-FN (por Guilherme Ignácio Franco de Andrade e Jean-Yves Camus); a Casa Pound (por Jefferson Rodrigues Barbosa); o Alternativ für Deutschland-AfD (por Vinícius Liebel); os partidos de extrema direita (por João Carvalho).

Se você quiser saber mais sobre a coleção Tempos Conservadores, visite o blog do projeto. Lá você também pode baixar os e-books de forma gratuita.

Até mais.

Referências:

[1] GONÇALVES, Rodrigo Jurucê Mattos. “O adubo da história”, Boletim da International Gramsci Society-Brasil, 05, Nº 03, Dezembro de 2020, p. 02. Disponível em: https://igsbrasil.org/boletins/boletim-5-no3-dezembro-2020.

[2] COSTA NETO, Pedro Leão da. Apresentação. In: GONÇALVES, Rodrigo Jurucê Mattos; ANDRADE, Guilherme Ignácio Franco de Andrade; RIBEIRO, Marcos Vinícius Ribeiro (Org.). Tempos conservadores: estudos críticos sobre as direitas. Goiânia: Edições Gárgula, 2018, p. 07.

Text in english:

It is not difficult to define the time in which we live as “conservative times”. Although the main conservative ruler, Donald Trump, was defeated in the 2020 elections, it is not possible to say that far-right conservatism is defeated. I comment below.

Firstly, the elected ruler, Joe Biden, is still a conservative, more moderate and more skilled than Trump, but still conservative. The ex-president did not consider himself defeated, who knows, he may even run again in the next elections, after all, he made 74.2 million votes, which is very considerable in a total of about 158 million.

While this text was being written, protesters therefore flags and banners bearing “Trump” stormed the Capitol, where the United States Congress works, trying to annul the ratification of Biden’s electoral victory. The scenes were reminiscent of Ukraine, when far-right demonstrators confronted the government in 2013 and 2014. Meanwhile, Trump’s Twitter reaffirmed that the elections had been rigged. Regardless of what happens in the U.S., Trump’s reactionary subversion message will echo across the world. It will be a source of inspiration. We can expect new attempts at coups d’état by the right in the world.

Second, far-right conservatism is far from being just an electoral phenomenon. Extremists are socially articulated, with numerous organizations at their side, such as churches, parties, institutions, think tanks, the press, television and YouTube channels, etc., etc. But what is fundamental is that conservatism – moderate, liberal and extreme right – is intertwined with the state and the capitalist system as a whole.

As I said elsewhere, “The republishing, in 2020, of older studies that seek to understand the mass psychology that underlies the advancement of the extreme right, like Theodor Adorno’s book ‘Studies on the authoritarian personality’ of 70
years ago, and Maria Rita Kehl’s work ‘Resentment’ from the early 2000s, indicate that the victory of conservative forces may represent something more profound and lasting” [1].

Furthermore, the rights and, above all, the extreme right, learned to skillfully capture the popular conscience, directing morally and intellectually considerable parts of the popular classes. Extremists have learned – sometimes appropriating weapons and methods from the left, inverting their values and meaning – to direct not only desires, but frustrations and this common feeling of humankind, the feeling of hate, in a sense that does not affect the system and it also suppresses forces contrary to the ruling class. This has resulted in the strengthening of capitalist forces and the destruction of workers’ rights.

The capitalist system has been, for more than a decade, in a strong crisis not only economic, but a crisis that is also political, social, cultural, etc. And, in the face of this crisis, the system itself has strengthened its most radical aspects, strengthening or resurging the extreme right, fascism, ultra-liberalism. Therefore, we can say that we still live in “conservative times”. In the specific Brazilian case, it can be said that the decade of 2010, marked by the rise of the extreme right, has not ended.

Today I would like to introduce you to the collection “Conservative Times: critical studies on the right-wings” of e-books totally free to download. Currently, the collection has three volumes published by the editorial label Gárgula, from the city of Goiânia, Brazil, available in Portuguese. It is a collective work, with texts by different authors, which have in common the scientific and critical research of right-wings.

We say “right-wings” (in the plural) because there are different aspects of this political, social and ideological prism, such as liberals, fascists, among others, who have in common the defense of the capitalist system and the privileges of the ruling classes. To cause confusion in the enemy, they can attack one or another bourgeois sector, as Italian fascists did against “plutocrats”, such as the attack on large Brazilian contractors promoted by judicial militants in their “anti-corruption” and “anti-political” crusade, but they invariably defend the fundamentals of the system. The title “Conservative Times” was borrowed from a book by Agustín Cueva, published in the 1980s.

The first volume of the collection, launched in 2016, was organized by Brazilians Lucas Patschiki (in memoriam), Marcos Alexandre Smaniotto and Jefferson Rodrigues Barbosa. In it we find texts about: Paulo Francis (by Alexandre Blankl Batista); the National Front (FN) and Marine Le Pen (by Guilherme Ignácio Franco de Andrade); Japanese nationalism (by Janaina de Paula do Espírito Santo); skinheads, integralists and bald people (by Jefferson Rodrigues Barbosa); the Millennium Institute (by Lucas Patschiki); the “philanthropic” right-wing and the Rotary Club (Marcos Alexandre Smaniotto); conspiracy thinking and conspiracy theories (by Marcos Meinerz); the 1976 coup d’état in Argentina (by Marcos Vinicius Ribeiro); the Ludwig von Mises Brasil Institute (by Raphael Almeida Dal Pai); and the Brazilian Institute of Philosophy (by Rodrigo Jurucê Mattos Gonçalves). The cover was made by the talented Paulo Jeca Schulz.

Volume 1 has a preface by the historian Gilberto Calil and a presentation by the philosopher Pedro Leão da Costa Neto who states: “The discussions proposed here are very current, especially at this time dominated by an increasingly cultural and political right-wing’s offensive and, necessarily , willing to fulfill its objective and economic and social complement: the destruction of workers’ rights “[2]. You can access the free e-book here.

In 2018 and 2020, volumes 2 and 3 of the “Conservative Times: critical studies on rights” collection were launched. There were important launches because they continued the project, which was expanded and internationalized, with the contribution of authors from Argentina, Uruguay, Portugal, France and Brazil. These volumes were organized by Rodrigo Jurucê Mattos Gonçalves (vol. 2 and 3), Guilherme Ignácio Franco de Andrade (vol. 2 and 3), Marcos Vinícius Ribeiro (vol. 2 and 3) and Jefferson Rodrigues Barbosa (vol. 3).

Volume 2 has the theme “Rights in the Southern Cone” (South America), and features texts on: anti-communism in Uruguay and Argentina (by Ernesto Bohoslavsky and Magdalena Broquetas); the Popular Representation Party-PRP (by Gilberto Calil); on conservative modernization in the state of Paraná, Brazil (by Marcos Alexandre Smaniotto); the 2012 coup d’état in Paraguay, which deposed Fernando Lugo (by Marcos Vinícius Ribeiro); the Re-Building Party of the National Order-PRONA, led by Enéas Carneiro (by Odilon Caldeira Neto); the coup between right-wing Argentine intellectuals (by Olga Echeverría); Miguel Reale and autocratic thinking (by Rodrigo Jurucê Mattos Gonçalves); the Brasília magazine, of an authoritarian nature (by Marcello Felisberto Morais de Assunção).

This volume also includes a Foreword by Pedro Leão da Costa Neto and four texts that make a simple tribute to deceased friends Patschiki Lucas (1983-2017) and Alexander Blankl Batista (1980-2018), who had texts published in Volume 1 of the collection.

Volume 3 has as its theme “Rights in Europe”, with a preface by historian David Maciel and texts on: the concepts of left and right (by Muniz Ferreira); two texts on the Front Nacional-FN party (by Guilherme Ignácio Franco de Andrade and Jean-Yves Camus); Casa Pound (by Jefferson Rodrigues Barbosa); the Alternativ für Deutschland-AfD (by Vinícius Liebel); the extreme right parties (by João Carvalho).

If you want to know more about the Conservative Times collection, visit the project’s blog. There you can also download e-books for free.

See you.

References:

[1] GONÇALVES, Rodrigo Jurucê Mattos. “The fertilizer of history”, Bulletin of the International Gramsci Society-Brasil, 05, Nº 03, December 2020, p. 02. Available at: https://igsbrasil.org/boletins/boletim-5-no3-dezembro-2020.

[2] COSTA NETO, Pedro Leão da. Presentation. In: GONÇALVES, Rodrigo Jurucê Mattos; ANDRADE, Guilherme Ignácio Franco de Andrade; RIBEIRO, Marcos Vinícius Ribeiro (Org.). Conservative times: critical studies on right-wings. Goiânia: Edições Gárgula, 2018, p. 07.

Publicado por

Rodrigo Jurucê Mattos Gonçalves

Doutor em História. Professor da Universidade Estadual de Goiás.

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