O “intelectual orgânico” de Antonio Gramsci. Por que “orgânico”? / Antonio Gramsci’s “organic intellectual”. Why “organic”?

Image credits: illustration of Leopoldo Mendéz

Em nossos estudos sobre os intelectuais, uma ferramenta teórica muito útil tem sido o conceito de “intelectual orgânico” desenvolvido pelo italiano Antonio Gramsci. Com este conceito, temos conseguido problematizar a função específica dos intelectuais na sociedade capitalista contemporânea. Trabalhei com esse conceito em diversos artigos que publiquei e nos meus livros.

Todos os homens são filósofos, diria Gramsci, no sentido de que todos os seres humanos, ao longo da história, meditam, pensam sobre a sua vida, a sua realidade. Então, todos os homens são, de alguma maneira, “intelectuais”. Todavia, quando falamos de intelectuais na sociedade em que vivemos, a capitalista, estamos nos referindo àqueles que se dedicam exclusivamente às atividades culturais, na produção do consenso, e que não exercem trabalhos manuais.

A função intelectual nos remete à divisão social do trabalho, isto é, a divisão entre trabalho manual e trabalho intelectual. No capitalismo, em geral esses dois tipos de trabalhos são desenvolvidos não só por pessoas diferentes, mas por classes sociais diferentes, sendo que cabe às classes trabalhadoras exercer os trabalhos manuais, os quais normalmente são mais penosos e menos remunerados.

Diante disso, o que fazem os intelectuais? Vamos ver o que diz Gramsci:

Todo grupo social, nascendo no terreno originário de uma função essencial no mundo da produção econômica, cria para si, ao mesmo tempo, organicamente, uma ou mais camadas de intelectuais que lhe dão homogeneidade e consciência da própria função, não apenas no campo econômico, mas também no social e no político: o empresário capitalista cria consigo o técnico da indústria, o cientista da economia política, o organizador de uma nova cultura, de um novo direito, etc., etc.” [1]

Assim, cada grupo social, no caso do capitalismo podemos citar os grupos sociais principais que o compõe, ou seja, burguesia e classe trabalhadora, cria para si uma ou mais camadas, ou grupos, de intelectuais. Esses intelectuais vão ser os organizadores da cultura, os sistematizadores do pensamento e dos valores, aqueles que vão pensar as leis, a moral, as normas de conduta de acordo com os interesses da classe dominante, vão pensar o funcionamento das empresas, das instituições, do Estado.

E por que intelectual “orgânico”? Gramsci buscou salientar a função organizadora dos intelectuais. Como ele disse no trecho citado acima, os intelectuais dão “homogeneidade e consciência da própria função” às classes sociais. Assim, os intelectuais podem dar forma aos objetivos sociais e políticos das classes sociais, podem, por exemplo, elencar uma série de inimigos a serem combatidos, dizendo a um determinado governo quem e como combater. Esse seria um exemplo relativo ao mundo da política e ao Estado. Numa empresa, por exemplo, o intelectual orgânico pode criar processos produtivos, como Taylor criou na indústria Ford, na década de 1910, com o sistema de cadeias produtivas. Em outra publicação podemos falar mais do fordismo.

Estes dois aspectos que citamos, do intelectual orgânico que atua no mundo da política – no Estado, nos diferentes aparelhos, como os partidos, os think tanks, etc. – e no mundo econômico – nas empresas, indústrias, etc. – são dois tipos de intelectuais que estão entrelaçados na figura do empresário. Interessante observar o trecho a seguir, que é continuidade da citação anterior de Gramsci:

“[…] Deve-se observar o fato de que o empresário representa uma elaboração social superior, já caracterizada por uma certa capacidade dirigente e técnica (isto é, intelectual): ele deve possuir uma certa capacidade técnica, não somente na esfera restrita de sua atividade e de sua iniciativa, mas também em outras esferas, pelo menos nas mais próximas da produção econômica (deve ser um organizador de massa de homens, deve ser um organizador da ‘confiança’ dos que investem em sua empresa, dos compradores de sua mercadoria, etc.). Se não todos os empresários, pelo menos uma elite deles deve possuir a capacidade de organizar a sociedade em geral, em todo o seu complexo de organismo de serviços, até o organismo estatal, tendo em vista a necessidade de criar as condições mais favoráveis à expansão da própria classe; ou, pelo menos, deve possuir a capacidade de escolher os ‘prepostos’ (empregados especializados) a quem confiar esta atividade organizativa das relações gerais exteriores à empresa. […]” [2]

Assim, não basta para o empresariado organizar as empresas, é necessário organizar o mundo como um todo, e de acordo com seus interesses. Essa organização não é neutra, busca-se assimilar ideologicamente os dominados (trabalhadores) ao grupo dominante (burguesia). Não se domina somente pela força, também se domina pelas ideias, pelo consenso. Os intelectuais orgânicos vão atuar nas diferentes frentes de organização do mundo capitalista.

Mas há também os intelectuais orgânicos da classe trabalhadora, bem menos numerosos que os primeiros e são aqueles que organizam as lutas das classes subalternas e atuam em sentido inverso e até de confronto em relação aos empresários e seus intelectuais orgânicos, uma vez que cada grupo social tem seu próprio interesse, embora as classes trabalhadoras muitas vezes não tenham consciência disso, justamente por terem sido assimiladas ideologicamente pelas classes dominantes. Neste caso, dizemos que a burguesia conseguiu exercer uma direção moral e intelectual.

Até a próxima postagem.

Referências:

[1] GRAMSCI, Antonio. Cadernos do cárcere. Volume 2: Os intelectuais; O princípio educativo; O jornalismo. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2004, p. 17.

[2] Idem, p. 17-18.

Text in english:

In our studies on intellectuals, a very useful theoretical tool has been the concept of “organic intellectual” developed by the Italian Antonio Gramsci. With this concept, we have been able to problematize the specific function of intellectuals in contemporary capitalist society. I worked with this concept in several articles that I published and in my books.

All men are philosophers, Gramsci would say, in the sense that all human beings, throughout history, meditate, think about their life, their reality. So, all men are, in some way, “intellectuals”. However, when we speak of intellectuals in the society in which we live, the capitalist, we are referring to those who dedicate themselves exclusively to cultural activities, in the production of consensus, and who do not exercise manual labor.

The intellectual function refers us to the social division of labor, that is, the division between manual labor and intellectual labor. In capitalism, in general these two types of work are developed not only by different people, but by different social classes, and it is up to the working classes to perform manual labor, which are usually more painful and less paid.

Given this, what do intellectuals do? Let’s see what Gramsci says:

Every social group, born on the ground originating from an essential function in the world of economic production, creates for itself, at the same time, organically, one or more layers of intellectuals that give it homogeneity and consciousness of its own function, not only in the economic field, but also in the social and political: the capitalist entrepreneur creates with him the technician of the industry, the scientist of political economy, the organizer of a new culture, a new law, etc., etc.” [1]

Thus, each social group, in the case of capitalism, we can name the main social groups that comprise it, that is, the bourgeoisie and the working class, create for itself one or more layers, or groups, of intellectuals. These intellectuals will be the organizers of culture, the systematizers of thought and values, those who will think about laws, morals, norms of conduct according to the interests of the ruling class, they will think about the functioning of companies, institutions, of State.

And why “organic” intellectual? Gramsci sought to emphasize the organizing function of intellectuals. As he said in the passage quoted above, intellectuals give “homogeneity and awareness of their own function” to social classes. Thus, intellectuals can shape the social and political objectives of social classes, they can, for example, list a series of enemies to be fought, telling a given government who and how to fight. This would be an example relating to the world of politics and the State. In a company, for example, the organic intellectual can create production processes, as Taylor created in the Ford industry in the 1910s, with the production chain system. In another publication we can talk more about Fordism.

These two aspects that we have mentioned, of the organic intellectual that operates in the world of politics – in the State, in the different apparatus, such as parties, think tanks, etc. – and in the economic world – in companies, industries, etc. – are two types of intellectuals who are intertwined in the figure of the entrepreneur. It is interesting to note the following excerpt, which is a continuation of Gramsci’s previous quote:

“[…] It should be noted that the entrepreneur represents a superior social development, already characterized by a certain managerial and technical (that is, intellectual) capacity: he must have a certain technical capacity, not only in the sphere restricted to its activity and initiative, but also in other spheres, at least in those closest to economic production (it must be a mass organizer of men, it must be an organizer of the ‘confidence’ of those who invest in your company, of buyers goods, etc.). If not all entrepreneurs, at least an elite of them must have the capacity to organize society in general, in all its service organism complex, even the state organism, in view of the need to create the most favorable conditions for the expansion of the class itself, or, at least, it must have the ability to choose the ‘representatives’ (specialized employees) to whom to entrust this organizational activity of general relations outside the company. […]” [2]

Thus, it is not enough for businessmen to organize companies, it is necessary to organize the world as a whole, and according to their interests. This organization is not neutral, it seeks to assimilate the dominated (workers) ideologically to the dominant group (bourgeoisie). It is not only dominated by force, it is also dominated by ideas, by consensus. Organic intellectuals will work on the different organizational fronts of the capitalist world.

But there are also the organic intellectuals of the working class, far less numerous than the first ones and they are the ones who organize the struggles of the subordinate classes and act in the opposite direction and even in confrontation in relation to the entrepreneurs and their organic intellectuals, since each social group It has its own interest, although the working classes often are not aware that, just because they were ideologically assimilated by the dominant classes. In this case, we say that the bourgeoisie has managed to exercise a moral and intellectual direction.

See you.

References:

[1] GRAMSCI, Antonio. Prison Notebooks. Volume 2: The intellectuals; The educational principle; Journalism. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2004, p. 17.

[2] Idem, p. 17-18.

Publicado por

Rodrigo Jurucê Mattos Gonçalves

Doutor em História. Professor da Universidade Estadual de Goiás.

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