História das ideias e dos intelectuais. O que é isso? [A questão da ideologia – Parte 1] / History of ideas and intellectuals. What is it? [The question of ideology – Part 1]

Bem, a pergunta acima certamente não poderá ser inteiramente respondida nessa postagem. Vamos precisar de mais, pois o assunto é complexo. Mas já podemos ir aos poucos respondendo – nessa e em postagens futuras – essa questão a partir do que autores fundamentais dizem sobre o tema.

Nesta postagem vou falar um pouco do que Karl Marx e Friedrich Engels disseram sobre o conceito de ideologia na obra “A ideologia alemã”. “Ideologia” é um conceito fundamental para compreender a questão das ideias e dos intelectuais. Abordei isso de forma detalhada no meu livro “História Fetichista”. O e-book está disponível para compra na Amazon.

Vamos lá.

A primeira reflexão que gostaríamos trazer, diz respeito à relação das ideias com o ser social do homem. Marx e Engels dizem assim:

A produção das ideias, das representações e da consciência […] é a linguagem da vida real. As representações, o pensamento, o comércio intelectual dos homens aparecem aqui ainda como a emanação direta de seu comportamento material. O mesmo acontece com a produção intelectual tal como se apresenta na linguagem da política, na das leis, da moral, da religião, da metafísica etc. de todo um povo. São os homens que produzem suas representações, suas ideias etc., mas os homens reais, atuantes, tais como são condicionados por um determinado desenvolvimento de suas forças produtivas e das relações que a elas correspondem, inclusive as mais amplas formas que estas podem tomar. A consciência nunca pode ser mais do que o ser consciente; e o ser dos homens é o seu processo de vida real. E, se, em toda a ideologia, os homens aparecem de cabeça para baixo como em uma câmera escura, esse fenômeno decorre de seu processo de vida histórico, exatamente como a inversão dos objetos na retina decorre de seu processo de vida diretamente físico.

[…] Em outras palavras, não partimos do que os homens dizem, imaginam ou representam, tampouco do que eles são nas palavras, no pensamento, na imaginação e na representação dos outros, para depois se chegar aos homens de carne e osso; mas partimos dos homens em sua atividade real, é a partir de seu processo de vida real que representamos também o desenvolvimento dos reflexos das repercussões ideológicas desse processo vital. E mesmo as fantasmagorias existentes no cérebro humanos são sublimações resultantes necessariamente do processo de sua vida material, que podemos constatar empiricamente e que repousa em bases materiais. Assim, a moral, a religião, a metafísica e todo o restante da ideologia, bem como as formas de consciência a elas correspondentes, perdem logo toda a aparência de autonomia. Não têm história, não têm desenvolvimento; ao contrário, são os homens que, desenvolvendo sua produção material e suas relações materiais, transformam, com a realidade que lhe é própria, seu pensamento e também os produtos de seu pensamento. Não é a Consciência que determina a vida, mas sim a vida que determina a consciência.” [1]     

Assim, Marx e Engels demonstram que as ideias são um produto do ser social do homem. A consciência é, portanto, um produto social da existência material do homem. As ideias não têm uma vida autônoma, a história das ideias e dos intelectuais corresponde à história dos homens em sociedade.

É importante salientar que o trecho citado acima constitui um dos fundamentos do materialismo histórico, também chamado de marxismo. E aí Marx e Engels deixam bem claro que o ser social do homem é que determina as ideias, e não o contrário.

Na próxima postagem sobre a ideologia, vamos falar desse tema a partir de outro viés: das relações sociais e das relações de poder.

Até mais.


Referências:
[1] MARX, Karl e ENGELS, Friedrich. A Ideologia Alemã. São Paulo: Martins Fontes, 1998, p. 18-20.

Text in english:

Well, the question above certainly cannot be answered entirely in this post. We will need more, as the subject is complex. But we can already answer that question – in this and in future posts – from what key authors say about the topic.

In this post I will talk a little about what Karl Marx and Friedrich Engels said about the concept of ideology in the work “The German ideology”. “Ideology” is a fundamental concept for understanding the question of ideas and intellectuals. I have dealt with this in detail in my book “Fetish History”. The e-book is available for purchase on Amazon.

Come on.

The first reflection that we would like to bring, concerns the relationship of ideas with the social being of man. Marx and Engels say:

The production of ideas, representations and conscience […] is the language of real life. The representations, the thinking, the intellectual commerce of men appear here still as the direct emanation of their material behavior. The same happens with intellectual production as it is presented in the language of politics, laws, morals, religion, metaphysics, etc. of an entire people, it is men who produce their representations, their ideas, etc., but real men, active , such as they are conditioned by a particular development of their productive forces and the relationships that correspond to them, including the broadest forms they can take in. Consciousness can never be more than the conscious being, and the being of men is the and if, in all ideology, men appear upside down like in a dark camera, this phenomenon stems from their historical life process, just as the inversion of objects in the retina stems from your directly physical life process.

[…] In other words, we do not start from what men say, imagine or represent, nor what they are in words, in thought, in imagination and in the representation of others, and then we reach men of flesh and bone; but we start from men in their real activity, it is from their real life process that we also represent the development of the reflexes of the ideological repercussions of this vital process. And even the phantasmagoria existing in the human brain are sublimations resulting necessarily from the process of their material life, which we can verify empirically and which rests on material bases. Thus, morality, religion, metaphysics and all the rest of ideology, as well as the forms of consciousness corresponding to them, soon lose all appearance of autonomy. They have no history, they have no development; on the contrary, it is men who, developing their material production and their material relations, transform their thinking and the products of their thinking with their own reality. It is not Consciousness that determines life, but life that determines consciousness. “[1]

Thus, Marx and Engels demonstrate that ideas are a product of man’s social being. Consciousness is, therefore, a social product of man’s material existence. Ideas do not have an autonomous life, the history of ideas and intellectuals corresponds to the history of men in society.

It is important to note that the passage cited above constitutes one of the foundations of historical materialism, also called Marxism. And then Marx and Engels make it very clear that man’s social being determines ideas, and not the other way around.

In the next post on ideology, we will talk about this theme from another angle: social relations and power relations.

See you.

References:
[1] MARX, Karl and ENGELS, Friedrich. The German Ideology. São Paulo: Martins Fontes, 1998, p. 18-20.

Publicado por

Rodrigo Jurucê Mattos Gonçalves

Doutor em História. Professor da Universidade Estadual de Goiás.

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